Que nome darei às palavras,
Quando do sol só restarem poentes
E no céu estrelado, a lua
Pousar, bela, clara e nua?
Que nome darei ao oceano da saudade
Que me embala em suaves canções
E me escreve, feliz, o pensamento?
Que nome darei às palavras
Do meu olhar marejado de ternura
Pelo canto infantil do petiz,
Pelo choro sempre novo do bebé?
Que nome darei às crianças
Que cantam e saltam à vida tão pura?
Que nome darei às rosas, às flores?...
Que nome darei às palavras não ditas
Do nosso desejo, em fogo consumidas?
Que nome darei aos abraços e beijos?
Que nome darei às palavras dos amantes,
Sem idade, sempre novas, flor prometida?
Que nome darei à brisa matinal
Dos poemas que não digo
Das púrpuras manhãs de sal
Deste mar sempre puro da escrita
Onde, do mundo, me invento
E me encontro contigo?
Que nome darei ao amor,
Esse mar de edénico sentimento,
Porque assim o quero e desejo?
Que nome darei ao teu beijo
De pontos, acentos, traços e tis
Com que te escrevo em mim?
E aos significados súbtis
Que nunca os pensei em ti?
Com que letras construo um jardim
Que sou eu, e és tu, e somos nós
Nestas palavras sem voz
Que só existem por que as lês
E lhe dás um nome, novo
Uma, outra e outra vez?!
Que nome darei às palavras
Nunca ditas do nosso desencontro,
Que sempre se escapam de mim?