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02/06/2010

Saudade mártir

Meu país, perdeste a alma dum nobre povo!
Meu país onde irás, sendo rosto da Europa?
Meu país não és nada. Sem um homem novo
Morrerás tão breve, sem luz, sem madrugada!


Meu país dos outroras de grandes guerreiros
És um despojo sujo de guerra sem luta
E apesar da reserva moral, e do povo em labuta,
Nas naus e na terra... Não temos timoneiros.



Meu país dum futuro, eternamente adiado
Voltaram-te as costas ao teu destino: o Mar
E na Europa devoraram um futuro subsidiado,
Penhorador que teus filhos e netos irão odiar!


Meu país de verde canto, amor dos poetas,
Quem te trouxe aqui, despido de glória?
Maldito Adamastor, nariz achatado... Vitória,
Desfralda as asas, atira-me ao mar, velas abertas.


Que o mar te faça renascer.
Que novos homens nascerão!
Mas como se te cortam as raízes,
Sem dó e sem compaixão
À desgraça te fizeram descer.
E tu ficas calado, nada dizes?
Meu país mártir!...
Só tenho saudade....

31/01/2010

MARINHEIRO DO DESEJO

Olhando as ondas dum mar distante
Vagueio pelas velas do meu passado.
Mastro alevanto, mastro quebrado,
Nas águas sombrias doutro Atlante.
Ondas ou vagas, brancas e claras
Batendo na rocha da minha alma
Como se à superfície da calma
A saudade fosse de dores amaras.
Meu desejo é silêncio e tanto,
Solta-se no vento, livre e só
Como a tormenta que sem dó
Fustiga de sal o meu mudo canto.
Desta arriba, penhasco marino
Regresso ao que fui: um menino,
Hoje, homem maduro e inteiro,
Regresso na espuma do marinheiro
E no meu andarilho desejo
Solto as amarras como o mar bravio
E vou-me na ternura fugaz dum beijo
À procura, além, de outro destino.
Sem velas, sem mastro ou navio.
E nesta triste tarde cinza de bruma
Nasço marinheiro, desejo e espuma.